Os discípulos de Cruyff no Felgueiras de 1995/1996


Foi a estreia de Jorge Jesus no primeiro escalão do futebol português. Em 1995, o Felgueiras chegava à primeira divisão do futebol português sob o comando do actual técnico dos encarnados. Jesus pegara na equipa quando esta ainda militava no terceiro escalão do futebol português e conseguiu em pouco tempo colocá-la na Primeira Liga.

Sérgio Conceição era uma das estrelas desse plantel e chegou mesmo entrar em choque com o treinador. Na altura com 20 anos, o extremo tinha sido cedido ao Felgueiras por empréstimo do Porto. Mas na turma de Jesus havia muitos outros jogadores que, de uma forma ou de outra, marcaram o futebol português.

O Felgueiras de Jesus foi provavelmente uma das equipas mais exóticas da década de 90, com jogadores vindos de paragens remotas como Trindade e Tobago, Austrália e Caraíbas. E mesmo com um ex-basquetebolista de 1,66 metros no ataque, o clube causou sensação nos primeiros jogos como rookie da Primeira Liga (chegou a andar em terceiro). Encerrou a primeira volta no meio da tabela, a cinco pontos dos lugares europeus.

Vídeo: Hélder Pinto

Jesus, que fez uma espécie de estágio com Cruyff no início da década de 90, tentou replicar em Felgueiras a famosa táctica de 4x3x3/3x4x3 diamante utilizada pelo holandês. Só que em vez de Koeman, Jesus tinha Leal. No lugar de Guardiola e de Michael Laudrup, tinha João Costa e Bozinovski. E em vez de Romário e de Stoichkov tinha Earl Jean e Leonson Lewis.


As tácticas de Cruyff, que levaram o Barça a tornar-se numa das maiores dream teams da história e que serviram de inspiração a Guardiola, acabariam trucidadas pelo Milan de Fabio Capello e de Daniele Massaro. E no dream team de Felgueiras teriam um fim ainda mais desastroso.

Apesar do futebol bonito da primeira volta do campeonato, na segunda metade da competição o clube entrou numa espiral de maus resultados que culminaram na descida de divisão. Uma estreia para esquecer de Jorge Jesus no principal escalão do futebol português. A aventura acabou mesmo com os adeptos em fúria, após uma derrota caseira por 3-0 frente ao Leiria na última jornada.

O clube nunca mais se recompôs e, após várias tentativas falhadas de regressar à Primeira Liga, acabou por ser extinto.

O dream team do Felgueiras



Zé Carlos
Foto: Glórias do Passado
Era o guarda-redes da equipa e um dos jogadores com mais currículo. O internacional brasileiro, que passou a maior parte da carreira no Flamengo, esteve no Itália 90 como suplente de Taffarel.

Chegou ao futebol português para defender as redes do Farense. Passaria ainda por Guimarães. Após o desaire em Felgueiras, foi recebido novamente pelo Fla. Se nos durienses esteve no mesmo plantel que Earl e Lewis, no regresso ao Flamengo integrou a mesma equipa de Romário e Bebeto (informação valiosa sugerida pelo Ai Vale Bujas).

Acabaria a carreira no Tubarão do Brasil. Pouco tempo depois seria, demasiado cedo, fintado por um cancro.

No clube duriense fez 26 jogos a titular naquela temporada. Sofreu 33 golos.




Acácio Figueiredo
Foi um dos defesas centrais mais utilizados por Jorge Jesus no Felgueiras, com 33 jogos a titular. Começou a carreira no Vila Real e encerrou-a ao serviço do clube da sua terra natal, p Arouca. Fez ainda parte do Farense europeu de Paco Fortes.

Depois de ter pendurado as chuteiras, Acácio dedicou-se à carreira de treinador. A estreia deu-se no Arouca. Foi responsável por ter tirado o clube dos distritais. Levou ainda o Valecambrense dos distritais para os nacionais e conseguiu promover o Lourosa da III Divisão para a II B.


José Leal

Foto: Glórias do Passado
Era outro dos jogadores do Felgueiras com um currículo bastante composto. Chegou à equipa duriense depois de ter passado cinco temporadas no Sporting e uma no Restelo.

Foi internacional português por 15 vezes e tanto podia jogar no centro da defesa como na lateral esquerda. Apesar de ter mostrado algum faro de golo ao serviço dos leões, em Felgueiras não foi além de um golo no campeonato.

Esteve apenas uma época em Felgueiras. Após a despromoção foi contratado pelo Estrela da Amadora, onde se voltaria a cruzar com Jorge Jesus.

Mesmo com a idade a pesar-lhe nas pernas, o esquerdino retardou até ao máximo a sua retirada do futebol. Já com 35 anos ainda ajudou o Santa Clara a ganhar o título da II Liga. Terminaria a carreira aos 38 anos no clube em que deu os primeiros pontapés da bola, o Académico de Viseu. Após o fim da carreira abraçou o desafio de ser treinador. Foi técnico dos viseenses, do Benfica de Castelo Branco e do Tondela.


Abel Silva
Nas fileiras do Felgueiras de Jesus estava ainda uma promessa adiada do futebol português. Abel Silva, que foi campeão mundial de sub-20 em Riade, apenas conseguiu ser titular em metade dos encontros da formação duriense.

O lateral direito chegou ao Felgueiras após várias épocas nos quadros do Benfica, clube em que fez grande parte da formação depois de ter dado os primeiros toques na bola na Tapadinha. Nos encarnados fez parte do plantel que conquistou o título em 1989. E foi utilizado frequentemente por Toni na equipa que arrebatou o campeonato em 1994.

Após a passagem pelos blaugrana do Norte, Abel Silva ainda jogou no Estoril e no Alverca. Terminaria a carreira ao serviço do clube onde tudo começou, o Atlético. Depois da saída dos relvados tornou-se scout. Desempenhou essas funções no Benfica e no Panathinaikos.

Cícero Lopes da Silva
O médio brasileiro chegou a Portugal vindo do brasileiro Sport. E foi directamente para Felgueiras numa altura em que o clube ainda estava nos escalões secundários. Passaria também pelo Amora, mas depressa regressaria aos blaugrana do Norte, ajudando a equipa de Jesus a ser promovida à Primeira Liga.

No entanto, uma suspensão por doping levou-o a perder grande parte da temporada. Muitos anos depois, o médio veio tentou envolver Jorge Jesus nesse caso.

Depois do Felgueiras, actuou ainda no Olhanense e passou quatro temporadas no Bragança, assumindo-se como uma figura do clube transmontano. A empatia com o Bragança foi de tal ordem que logo que acabou a carreira passou seis anos no banco a comandar a equipa.

Bozinovski
O macedónio com nacionalidade australiana chegou a Portugal vindo do Club Brugge para o Beira-Mar. E mostrou bom futebol nos aveirenses, o que lhe garantiu bilhete de ida para Alvalade. Mas o médio formado no futebol australiano não se afirmou nos verde e brancos.

Antes de chegar a Felgueiras contava já com experiências no Paços de Ferreira e nos ingleses do Ipswich Town. A temporada às ordens de Jorge Jesus marcaria o seu último ano em Portugal. Transferiu-se para a Turquia e passaria os últimos quatro anos da carreira em Singapura.

Mas Portugal ficou-lhe no coração, em especial a cidade de Aveiro. Regressou ao nosso País e dedicou-se a agenciar jogadores. E a linhagem de Bozinovski no mundo do futebol pode continuar. O filho do antigo médio é guarda-redes dos juvenis da Académica.

Após pendurar as botas, Bozinovski tornou-se agente de jogadores e, segundo a informação prestada à FIFA, coordena as operações a partir de Aveiro. 

João Costa
Era, a par de Sérgio Conceição, outra das promessas do FC Porto que rodavam em Felgueiras. O médio era uma das peças essenciais da equipa de Jorge Jesus. Apesar da despromoção do clube, o futebol praticado por João Costa valeu-lhe na época seguinte um lugar no plantel principal dos azuis e brancos.

Mas não passaria do estatuto de promessa, sendo muito pouco utilizado na equipa do FC Porto campeã em 1997 e 1998. Passou depois a maior parte da carreira em Setúbal e a despedida dos relvados deu-se ao serviço do Merelinense, na III Divisão do futebol português.

Após a retirada ainda teve algumas experiências como treinador-adjunto em equipas de escalões secundários.

Filipe Azevedo
Imagem: http://olhanense.davidlopes.com/
Era uma espécie de arma secreta de Jorge Jesus. Foi um dos suplentes mais utilizados pelo técnico da Amadora. Naquela época de 1995 era outra das grandes promessas da equipa do Felgueiras.

Com 20 anos, chegou aos durienses proveniente do poderoso Marselha, onde fez a formação. Chegou a representar a selecção francesa nas camadas jovens. Mas foi mais um dos casos de jogadores que não passaram do estatuto de promessas.

Apesar disso, o atacante tornar-se-ia um dos maiores globetrotters do futebol português. Foi o primeiro luso a jogar na Rússia, ao serviço do Lokomotiv Moscovo. Passou ainda pelo Chipre, antes desse país se ter tornado moda para jogadores nacionais, e pelo futebol indiano. Acabaria a carreira em 2010 na terceira divisão espanhola.

Abraçou a carreira de treinador e continua com a sua viagem à volta do Mundo. Uma das últimas experiências foi como adjunto nos sauditas do Al-Qadisya.

Jorge Amaral
Foto: Vedeta ou Marreta?
Era mais um dos heróis de Riade à disposição de Jorge Jesus. O extremo, formado no Sporting, chegou a Felgueiras após uma temporada falhada ao serviço do Benfica de Artur Jorge.

Ainda apontou quatro golos ao serviço da formação duriense, mas seria mais uma das mil e uma promessas do futebol português que não chegariam ao topo. Apesar do potencial, os problemas nos joelhos impediram o extremo de atingir voos mais altos.

Após a despromoção do Felgueiras, Amaral jogaria ainda no Belenenses e no Vitória de Setúbal. Esteve três temporadas no Atlético e acabaria a carreira ao serviço do Beira-Mar, não o de Aveiro, mas o de Monte Gordo na III Divisão.

Penduradas as chuteiras, enveredou pela carreira do treinador, assumindo o comando de algumas equipas dos escalões secundários do futebol nacional.

Ronald Baroni
Foto: Os Filhos do Dragão
Há já várias décadas que os clubes portugueses tentam descobrir jóias no futebol sul-americano. Apesar dos muitos craques que já encontraram também já tiveram uma boa dose de flops. Um dos exemplos é Ronald Baroni. O atacante peruano, filho de argentinos, chegou às Antas em 1994 depois de ter deslumbrado no futebol sul-americano.

O internacional peruano não se conseguiria afirmar no Porto de Sir Bobby Robson e na temporada seguinte foi emprestado ao Felgueiras de Jesus. Mas confirmou o estatuto de flop na equipa duriense, marcando apenas um golo.

O descalabro em Felgueiras apontou a porta de saída do futebol português a Baroni. Regressou ao Peru. E jogaria ainda na Turquia, antes de terminar a carreira na Colômbia. Actualmente é agente de alguns jogadores argentinos

Clint Marcelle
Foto: Cromo sem Caderneta
No início dos anos 90 uma das modas do futebol português era importar jogadores de paragens exóticas como Trindade e Tobago. Um dos casos foi Clint que, após passar várias épocas nos escalões secundários do futebol nacional, foi uma das apostas de Jesus em Felgueiras.

Apesar do atacante não ter mostrado grande faro de golo nos blaugrana do Norte, Clint não será esquecido pelo adeptos do Barnsley. Assinou pelo clube após a despromoção do Felgueiras. Na segunda temporada ao serviço da equipa britânica marcou o golo que carimbou o passaporte do clube para a Premier League.

Passaria a maior parte da carreira nos relvados de escalões secundários do futebol inglês. Após a retirada definitiva dos relvados continuou ligado ao desporto-rei. Foi treinador de clubes de Trindade e Tobago, adjunto da selecção olímpica do país e abriu uma academia de futebol nas Antilhas.

Earl Jean
Foto: Cromo sem Caderneta
Veio directo de Santa Lúcia nas Caraíbas para Oliveira de Azeméis. E trocou o basquetebol pelo futebol. Após algumas temporadas em escalões secundários do futebol nacional, o avançado que tinha "um pouco de Cadete, de George Weah e de Yekini" encheu as medidas as Jorge Jesus.

Apesar de ter sido uma das figuras do início do campeonato, o atacante de 1,66 metros que fazia golos de cabeça, perdeu fulgor ao longo da temporada.

À semelhança de Clint, Earl sairia no final dessa temporada do Felgueiras para o futebol inglês. Ainda jogou nos escoceses do Hibernian, mas passaria os últimos anos da carreira no futebol tobaguenho. Depois de abandonar os relvados, chegaria a adjunto da selecção de Santa Lúcia.

Leonson Lewis
Foto: Glórias do Passado
Era a estrela da companhia. Lewis chegou a Portugal na mesma remessa de Clint e foi o melhor marcador do Felgueiras na temporada e o terceiro goleador do campeonato.

Facturou por 15 vezes e mostrou propensão para desfeitear os guarda-redes de Porto e Benfica. Os azuis e brancos foram mesmo a vítima preferida de Lewis, que lhes apontou três golos em dois jogos.

Após a despromoção do Felgueiras, o ponta de lança tobaguenho passaria pelo Boavista e pelo Chaves. Mas sem grande sucesso. Jorge Jesus ainda repescaria o jogador para o Estrela da Amadora, mas na Reboleira os golos também não chegaram.

O capítulo no futebol português encerrou-se no União de Lamas. Mas Lewis teimou em não pendurar as chuteiras e ainda regressou a Trindade e Tobago para jogar. Após o fim da carreira dedicou-se a treinar camadas jovens de clubes das Antilhas e da selecção tobaguenha.

Foto principal: Glórias do Passado

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3 comentários:

  1. FANTÁSTICO POST. Muito bom! Parabéns, Zé Pelé! Esta equipa do Felgueiras é mítica e inesquecível. Só para terem noção do que era o Zé Carlos (GR), ele depois de sair do Felgueiras voltou para o Flamengo... Flamengo que tinha no ataque "só" Romário e Bebeto. Portanto, numa época a jogar com Earl e Lewis, na outra com o Romário e Bebeto.

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  2. Muito obrigado pelo comentário. Já actualizei o post com essa informação. Grande abraço.

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  3. XCELENTE ! FANTÁSTICO ! PÉROLAS DOS 90'S !!!

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