Afinal, quem era realmente Béla Guttmann?

Escapou aos campos de concentração nazis. Correu o mundo a  inventar novas tácticas de futebol. Construiu o melhor Benfica de sempre. E ganhou a alcunha de feiticeiro magiar. O húngaro Béla Guttmann foi um dos melhores treinadores da história do desporto-rei e criou uma série de regras e de mitos que o imortalizam no mundo do futebol. A história mais assustadora é a da maldição que lançou ao Benfica, quando após a conquista das duas Taças dos Campeões Europeus, em 61 e 62, viu a direcção dos encarnados recusar-lhe um aumento salarial. 

"Senor não mais ganhar taça dos campeões europeus e vou embora", terá dito o mítico treinador, segundo a versão da maldição contada por António Simões à RTP. Sete finais depois, o Benfica continua sem conquistar um título europeu. Mas a maldição funcionou nos dois sentidos. Após sair da Luz, Guttmann nunca mais venceu taças europeias.

Nasceu na Hungria em 1899 e viveu momentos marcantes da História. Passou metade da carreira de futebolista nos EUA, ao serviço de equipas de Nova Iorque, assistindo na primeira pessoa ao crash de Wall Street em 1929 e à Grande Depressão que se seguiu à maior crise financeira da História. Quando pendurou as chuteiras, regressou à Europa para treinar equipas austríacas, holandesas e búlgaras durante a década de 30.

Mas o maior inimigo que lhe apareceu pela frente não foi num campo de futebol. Devido à sua religião, o judaísmo, teve de fugir da Hungria para a Suíça de forma a escapar aos campos de concentração nazis (o irmão de Guttmann foi um dos milhões de vítimas desse período negro da humanidade). A carreira como treinador ficou interrompida durante todo período da II Guerra Mundial. Após o conflito, retomou a actividade no futebol húngaro e rumaria para Itália no final da década de 50, onde treinou o Pádua, o Triestina, o Milan e o Vicenza. Nos rossoneri acabaria por ser despedido, apesar de liderar o campeonato. A partir daí, começou sempre a exigir uma cláusula contratual a impedir que fosse demitido caso estivesse em primeiro na tabela classificativa.

Coleccionava clubes diferentes no currículo, já que tinha como uma das suas regras não ficar mais de duas temporadas num clube. "A terceira temporada é fatal", dizia. Antes de chegar a Portugal em 1958, estreando-se no futebol nacional ao serviço do Porto durante uma época, esteve no futebol sul-americano. Em 1959 trocou as Antas pela  Luz, onde tomou medidas drásticas. Revolucionou o balneário, dispensando quase 20 jogadores e apostou em jogadores jovens que se revelaram autênticos craques, como Eusébio. Conseguiria construir o melhor Benfica de sempre.

Curiosamente, o Benfica foi o único clube em que Guttmann violou a sua própria regra do não mais que duas épocas. No entanto, e apesar de ter vencido a Taça dos Campeões Europeus perdeu o campeonato na última época (a terceira, a tal que é fatal) para o Sporting. A equipa "não tem cu para as duas cadeiras", terá justificado o mago húngaro, que não tinha papas na língua.

A nível táctico, Guttmann foi o inventor da formação 4-2-4. A nível da personalidade, rezam as crónicas que era frontal, super-confiante e que tinha aquela arrogância característica dos maiores génios dos bancos de suplentes, como Mourinho, por exemplo. Além disso, as suas palavras parecem marcar a vida de quem o ouviu ou de quem ouviu falar dele. Um dos exemplos é Eusébio. Antes da final de Viena de 1990, o Pantera Negra dirigiu-se ao túmulo do seu principal mentor para rezar com o objectivo de quebrar a maldição. Em vão. O Benfica perderia por 1-0 com o super-Milan de Van Basten e Rijkaard. E se nem Jesus consegue quebrar a maldição, quem conseguirá?
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